Minha relação com a Paróquia São Charbel de Guarulhos.
Minha relação com a Paróquia São Charbel de Guarulhos começa na raiz da devoção: a infância no Líbano, quando frequentemente visitávamos o Mosteiro de São Maron em Annaya, local de peregrinação onde está o túmulo de São Charbel Makhlouf. Essa experiência formou em mim um vínculo afetivo profundo com São Charbel, que me acompanhou ao longo da vida — inclusive com uma foto do santo que carrego sempre na carteira.
O episódio determinante para o meu apoio e participação aconteceu no final de 2005. Fui convocado de última hora para representar a Secretaria de Assuntos Jurídicos num evento realizado na estação de tratamento de resíduos sólidos, então conhecida como “lixão”, administrada pela empresa Quitaúna. Confesso que fiquei contrariado por ter sido avisado em cima da hora, mas, como costumo fazer nessas situações, recorri a Deus pedindo que transformasse o imprevisto em algo positivo e proveitoso.
No evento estavam diversas pessoas, entre elas o padre Antônio Bosco, pároco do Santuário São Judas Tadeu, que já conhecíamos pela proximidade e atendimento à nossa família. Em meio à conversa, mostrei ao padre a foto de São Charbel que guardo há muitos anos. O diálogo evoluiu para temas ligados aos ritos orientais: comentamos a missa de extrema-unção do Papa João Paulo II, na qual estavam presentes muitos católicos orientais, e citei que entre eles estava o Vigário Patriarcal da Igreja Católica de rito Maronita, Rev. Dom Roland Abou Jaoude, parente do meu avô.
O padre demonstrou interesse pelos ritos orientais e mencionou contato com D. Fáres Maakaaroun, Bispo Greco-Melquita. Expliquei que, embora maronita, por vezes frequentava também a Igreja Nossa Senhora do Paraíso para acompanhar o rito melquita de São João Crisóstomo. Conversamos sobre a história da Igreja Maronita e do Líbano — indissociáveis entre si — e enfatizei com orgulho o papel da comunidade maronita como guardiã de outras comunidades cristãs no país. Lembrei que, historicamente, a presidência da república do Líbano é reservada a um católico maronita e que a maioria dos imigrantes libaneses foram católicos maronitas ou cristãos ortodoxos.
Nesse clima de diálogo, lembramos o nome do D. Joseph Mahfouz, bispo maronita na época, e concluímos que ele certamente apoiaria a criação de uma paróquia maronita em Guarulhos. Daquele momento em diante, coloquei-me à disposição para apoiar concretamente o projeto. Minha atuação foi prática e persistente: começamos a identificar famílias de tradição maronita na cidade; mobilizei nossa rede de contatos para encaminhamento de convites; buscamos envolver famílias de origem síria e libanesa, independentemente de serem cristãs; e promovemos divulgação em jornais locais e órgãos do governo municipal para alcançar um público mais amplo.
Para a festa de inauguração colaboramos na confecção de pratos típicos da culinária libanesa, trouxemos grupo de dabke (dança tradicional), que não devem faltar em nossos eventos, bem como, nos empenhamos para encaminhar centenas de convites para assegurar que houvesse o maior número de adesões ao evento.
A inauguração oficial se realizou em 28 de março de 2006 no Santuário São Judas, data que coincidiu com 3 (três) anos do passamento da minha mãe. Contou com a presença de autoridades relevantes: o cônsul do Líbano, Dr. Joseph Sayyah; o Eparca Maronita, Dom Joseph Mahfouz; o prefeito de Guarulhos; e outras autoridades civis e religiosas. Fui incentivado pelos membros da comunidade a discursar no evento. Em minha fala destaquei a importância da instalação da paróquia maronita em Guarulhos como centro de resgate das tradições, de aproximação entre famílias de origem oriental e de compartilhamento litúrgico e cultural com nossos irmãos de tradição latina. Também aproveitei para agradecer publicamente ao padre Bosco pelo trabalho decisivo e ao Bispo Dom Luís G. Bergonzini pelo acolhimento dado à iniciativa.
Ao longo do processo, eu e a Sra. Mona Risk Brasil — peço desculpas se esqueço de citar outras pessoas que também se empenharam — insistimos para que a nova paróquia fosse dedicada a São Charbel. O padre Bosco encaminhou essa proposta ao Bispo Dom Joseph Mahfouz, que, em princípio, demonstrou predileção por dedicar a paróquia a Nossa Senhora do Líbano. Mesmo assim, nossa persistência e mobilização foram fundamentais para afirmar a identidade maronita e a importância de preservar a devoção a São Charbel naquela comunidade.
Em suma, minha participação combinou memória religiosa pessoal — a devoção enraizada desde a infância no Líbano — com ação comunitária concreta: articulação institucional, mobilização de famílias, apoio cultural na organização de evento, divulgação e presença ativa na inauguração. Tudo isso com o objetivo de apoio a criação de um espaço onde a tradição maronita e a devoção a São Charbel pudessem ser mantidas, partilhadas e integradas à vida religiosa da cidade de Guarulhos.
Guarulhos, em 14/03/2026.
Charlles Abou Jaoude